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Bukowskville
por Cat Harvey


Episódio 1: O cúmulo da tormenta familiar ( A revanche de papai)

Tudo começou ontem, quando minha tia, mais uma vez teve um xilique, pq, sinceramente, pq ela é uma puta-solteirona-mal-amada-q-só-deu-pra-um-cara-na-vida q desconta seus problemas em cima do primeiro conhecido q lhe aparecer pela frente, como meu pai. Com o detalhe de q eles são irmãos! O resto é desculpa esfarrapada pra liberar a energia de tanta coisa acumulada dentro de um corpinho magro e branco de 52 anos. Eu q não tenho freio na língua (e papai sempre disse isso...) não resfresquei a pelezinha dela!
Feito isso, o mal-estar instaurado, resolvi ir visitar a única, sem exageros, pessoa real q conheço nessa cidade literalmente de poucos amigos.

Assim, um outro episódio se inicia...

Episódio 2: Quando o tiro saiu pela culatra e acertou meu pé!

Chegando lá, tive q suportar mais uma crise, q dessa vez abençoadamente não era minha, de família!
Passando isso, a garota diz:
vamos sair!?

Num retrocesso, conheceremos agora o perfil dessa personagem nova: Georgiane (sim, temos o mesmo nome...), garota internética, teve a brilhante idéia de procurar suas xarás no orkut e bateu justo na minha porta!
Eu, Georgiane também, na falta de uma voz humana q respondesse seus estímulos, resolveu aceitá-la.
Ela, neurótica com carteira e receita azul, tarjas pretas e uma passagem recente pelo manicômio (Não, isso não é o roteiro de um filme! É a minha vida mesmo!) é a pessoa mais carente q eu já conheci.

Voltemos a ação:
O passeio?? Shopping Curitiba! Completamente fora das minhas vontades, e não é charme de pseudo-anarquista q vestiu camiseta de Guevarra na facu; é sentimento real! Mas tomada pelo desespero de olhar ao redor e não enxergar mais ninguém, sucumbi! Dois milk-shakes depois, voltamos pra casa e assistimos A Bela e a Fera, e fomos dormir às 3 da matina!
Ás oito fomos acordadas pela neurótica mãe de Georgiane, aos berros e xingamentos q dispensam comentários,e começamos o dia de hj!
Na sua possessividade sem tamanhos e precisando mais de mim do q eu dela, Georgiane não me deixava ir embora e não podia me ver perder o olhar por entre meus parcos pensamentos q começava o velho dramalhão mexicano do: vc não liga pra mim, não gosta da minha companhia, não retribui a atenção q te dou e etcetcetc Até pra ir ao banheiro queria a minha companhia!!
Lá pelas tantas, cansada daquilo, dei a primeira rajada! Desandei a falar as verdades q ela não está acostumada a ouvir e fui-me!

Episódio 3: Quando penso q a paz reinará...

...pq minha tia já estaria pro trabalho e meu primo tb!
Ainda dei umas voltinhas pra matar o tempo q nunca morre, com uma roupa completamente em desacordo com o calor incomum, peguei o bi-articulado.
Na descida, pensando estar ganhando do maldito tempo, atravesso um terreno baldio ao lado de casa. E o q me aguarda?? Nem Fernando Meireles faria melhor!!
Dois bêbados me abordaram:
_ Mocinha? Quer comer o cú daquele ali? (???) Por qualquer real ela dá! Tá com a bunda assada de tanto fazer o serviço!
_ Hum...se for pra essa bucetinha, eu não cobro nada não...
E eu:
_ Vão às putas das quais vcs saíram, seus bêbados dos infernos!!!!!! (Gritando o mais alto q eu pude!)

Um rapaz veio em meu socorro; os bêbados correram; eu cheguei em casa...
Lá chegando ouvi mais reclamações, sobre como demorei; como se preocuparam; como precisaram de mim; e como eu era ingrata; e como ela estava sendo ignorada por mim e meu primo; e como éramos injustos e blábláblá 2h34min no meu pé de ouvido...e eu sobrevivi pra te mandar esse e-mail!

Tudo q foi escrito aqui representa um único dia na minha vida e é
verídico. E como eu queria q fosse absurdamente irreal...

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Estrelampos & Piristrelas
por Ari Almeida
Os estrelampos e as piristrelas são pouco vistos nos campos do sul e suas melodias no entanto são ouvidas por quase toda a parte e suas palavras são carregadas de uma incompreensão absoluta e dos estrilampos apenas em determinadas madrugadas posso observar sorrisos e piscadelas sutis de olhos que indicam que o caminho está limpo

sem bem-vindos ao reino impune das piristrelas

A VIDRAÇARIA NÃO É MAIS AQUI

Tudo aquilo poderia, de repente, numa dessas, querer sentir está muito perto. A grande merda é a parede de vidro nos separando. É o labirinto que chama com suas piristrelas sedutoras que de quatro me deliram quando o labirinto é a única saída.

- Como você saíu dessa?

- Tudo como um estalo em sua mente e uma idéia de última hora e que me faz lembrar da caixinha de fósforo de fósforos que roubei da coleção cara daquele da casa aquela que fomos depois do acontecido...

Então as coisas a cada passo se tornam mais tênues e a umidade das paredes da caverna e das criaturas de olhos pálidos e as criaturinhas estridentes e toda a reinvenção da putrefação comercial e social se torna algo realmente tedioso e frustrante. As coxas gostosas das piristrelas da noite metamorfoseiam-se em medusas. O sol do labirinto e o olhar da medusa que faz pedra quem árvore nasce rio.

- Sim, os fósforos riscados na alta noite

- E um pontinho de luz rompendo o breu para quem está longe. Quanto mais longe mais singular é o ponto. Nas trevas pode consolar alguém, mas não pode consolar a mim, no máximo ofusca o que tenta me cegar.

E a vidraça existe para que a contemplação contida e o desejo se torne um mito a ser adorado em todos os segundos dias da semana. As coisas talvez um dia acabem e fique o alívio de não Ter se machucado nos estilhaços de uma vidraça quebrada.

.............................

Existe um lugar onde as estrelas

desabroxam como flores

lá correm rios de vento

o arco-íris tem mais cores

é neste lugar que te invento

Existe um lugar onde as piristrelas

e os estrelampos

nascem com vida e alegria

eles amam a chuva e as canções

de saudade ninguém sofria

e ninguém judia

os corações

Os estrelampos e piristrelas que conheci na verdade não são os estrelampos e piristrelas que aqui descrevo. Eles não caberiam em letras como também não apareceriam em imagens demais para os lhares que aí existem. Por hora se deixa estrelampos e piristrelas e partimos para o fato de nunca saberem para onde vão e isso é uma obrigação mortal. Eles riem muito e somente lembram de onde vem através de pequenas lembranças sórdidas e coloridas. Suas lembranças são como brinquedinhos. Eles são estranhos conhecidos. Conhecem-se em suas essências e profundezas e dores e alegrias mas não conhecem o número de braços de seus companheiros. Muitos braços, poucos ou nenhum. Nem de que lado, nem de que jeito, eles podem tudo e não reparam nada.

Os estrelampos e piristrelas que conheci e amassam suas caras e espremem seus trinta e sete corações e lá não existe destino. Mas existe o terrível mal-me-quer que sorteia estrelampos e piristrelas em sua loteria. Eles poderiam ignorá-los mas a mágica das coisas se faz assim. Vou te dizer agora que eles passeando com aquelas mãozinhas brancas dadas é muito mais que a música como conhecemos e não conhecemos. As coisas que conhecemos.

Os estrelampos e piristrelas que conheci rezam por uma parábola. Eles desejam ardentemente um adjetivo. Existem até templos sagrados para isso. Se não existe uma lógica ou uma fórmula ou algo real e que não vá embora para descrever você. Para você ou morango ou estrela ou carta anônima de amante você não existe. Uma parábola para um estrelampo e uma piristrela: a sorte está lançada. Esse é o conceito de sorte para eles e para as plantas que crescem por isso.

Os estrelampos e piristrelas que conheci às vezes diziam flores coloridas cartas cortes geladeiras não saem gente rua outro lado não ver o que existe aqui dentro buraco arte por você nasce besourinhos antena chuva vidraça TV não sei que sabe um dia saudades olhinhos tristes e alegres piadas. Um estrelampo e uma piristrela em sua vida e encaixes das peçinhas da caixa soarão como uma melodia nova.

Só não diga que seu telhado é surreal, os estrelampos e piristrelas ficarão bravos. Telhados surreais são a proteção máxima para sua inexistência.

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Pedras na cara
por Sara Bonfim


O barulho dos carros que passavam ainda era menor do que o ruído que restava na minha cabeça. Os primeiros raios de sol vieram tímidos me avisar que já era hora de sair dali. Depois veio o sol por inteiro, esquentando o corpo e me doendo essa cabeça barulhenta. Abro os olhos e minha primeira visão é a garrafa de pinga da noite passada. A grama úmida já incomoda e talvez pior que isso só acordar com a ignorância total das pessoas que me viram dormindo na praça.
As crianças se divertiam jogando pedras em mim e se eu não estivesse tão debilitado agora com certeza revidaria. Mas hoje estou cansado e aceito o papel da mulher adúltera. Ainda não vi esse tal de Jesus para vir aqui e reclamar o direito de jogar pedra nos outros. Atire a primeira pedra quem não tiver pecado. Atire a primeira pedra quem nunca tomou um porre, ele
diria por mim.
E tudo isso porque na noite passada marquei encontro contigo no bar e você não foi. Uma cerveja e você não aparece, duas, três, vinte e abraçava seus amigos perguntando por você.
Na minha visão distorcida de bêbado todo vulto tinha o seu nome.  Ontem todas as mulheres balançavam o cabelo como você. E mesmo assim acabei sozinho na praça.
A verdade é que hoje é dia das mães e tenho medo. Não queria ficar sozinho nessas datas especiais.  Bom, acho melhor levantar. Minha mãe contou que chorou na igreja com medo de não ter sido o bastante pra mim. Disse que eu sou rebelde e
que se preocupa. Ainda bem que ela não me viu aqui.
Preciso tomar um café e te ligar hoje à noite. Se você não me aparece te mato. Depois volto e escolho um canto melhor que esse. Dormir perto do meio fio nunca dá certo mesmo.
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A mulher da televisão
por Sara Bonfim
26.abril.2003

Depois de trancar a faculdade por razões extraordinárias, Cristiane passou a viver uma vida depreciativa, insensata e boêmia. Para pagar suas dívidas teve que vender a guitarra, o celular e a televisão. Aliás me enganei, ela não vendeu o celular. Na venda da guitarra, negócio certo. O problema veio mesmo com a televisão...

*

Após cobrar de Thaíse milhões e milhões de vezes, quase compro uma pistola de brinquedo e pulo no pescoço da mulher. Meus amigos pediam dinheiro emprestado, e eu sempre dizia: "Te empresto quando a mulher da televisão me pagar."

Já estava cansada de ouvir a mesma coisa de todo mundo: "E a mulher da tela, já te pagou?", "Você foi burra mesmo de vender uma televisão sem receber a grana na hora. Bem que eu te avisei.", "Se quiser dar um susto na da tela tô aqui pra isso."

Foi na última frase que tomei coragem para ir atrás daquela vigarista. Já tinha ido à delegacia, tinha a grana para recorrer no cartório, mas pensei em tentar pela última vez. Fabiano apareceu no seu fusquinha branco e fomos conversando até o tal do Tarumã, onde morava a sem-vergonha. Chamamos ao interfone e ninguém atendeu. Tocamos no sobrado vizinho e aparece uma mulher baixinha, com cara de mestre dos magos, para solucionar nossas questões. Fingimos ser da polícia e
perguntamos o que ela sabia da gatuna. A velha respondeu que Thaíse tinha fama de ladra e que era estelionatária de carteirinha, com prisão e o caralho a quatro. Fiquei louca, o sangue subiu ao ter certeza de que realmente havia sido enganada. Logo eu, que precisava tanto daquele dinheiro. Fumamos uns cinco cigarros pensando no que fazer. Depois que
um menino saiu e acidentalmente nos abriu o portão, não pensamos duas vezes: invadimos o pátio do minicondômínio de sobrados procurando o número da casa. ÓTIMO, 8. VOU INVADIR ESSE NEGÓCIO.

Não tinha força para puxar aquela janela. Fabiano resolveu pular e abriu me ajudando a percorrer os cômodos daquela luxuosa casa. Ele foi realmente muito esforçado. Depois de procurar algum dinheiro sem êxito, roubamos uma conta de telefone e a tela de 20' polegadas da mulher. A minha TV de 14' não estava mais lá.

O engraçado de tudo é imaginar ela entrando em casa e se deparando com um buraco no lugar da televisão. A mulher sabe que eu estou envolvida nessa trama. Meus pais descobriram e faltaram jurar prisão. Às vezes sinto que realmente perco a noção das coisas, mas como negar o meu senso de justiça em tudo isso? Até o Fabrício que não tinha nada a ver com
isso se consternou com a minha situação...

"Vamos vender essa tela, dividir a grana e comprar tudo de maconha...."

"Não, vamos trocar a TV direto por maconha."

Sério? A gente podia...

"Não, vamos deixar na Andréa."

Espera aí, sei onde podemos vender esse treco para não sujar o nosso
lado.

"Beleza."
 

Vendemos a televisão por cento e cinquenta reais para um velho sisudo, dono de uma loja de eletrodomésticos. Após fumarmos na casa de Cristiane veio uma fome desesperadora que nos levou direto ao rodízio de pizza. Gastei quase tudo o que ganhei em pizza. Pra mim essa história acabou em pizza.

*

Certas ações tem significados ambíguos. Se fosse comigo faria a mesma coisa. Talvez até o caro leitor, não é? Afinal acho que mesmo sendo justiça com as próprias mãos, foi justiça.

Já para os policiais que viriam em seguida, caso a vizinha anã não fosse fofoqueira e não quisesse ferrar Thaíse vendo tudo e ficando calada, acredito que essa história não soaria tão justa assim.

Depois de roubar a tela, Cristiane nunca mais foi a mesma. A menina foi forçada por seus pais a fazer exame de drogas e logo em seguida foi internada em um hospital psiquiátrico (não, essa não é a história do filme O Bicho de Sete Cabeças). Hoje divaga sobre o episódio da televisão. Então em seus delírios insanos imagina a estelionatária fazendo juras de morte à autora do furto e sorri debilmente com a visão.
Depois acorda e se xinga por ter praticado um crime. Cristiane só não entende até hoje por que foi punida se só tomou de volta o que era seu:
"Olha só os políticos que tomam de todo mundo o que não é deles e não pagam nada..."

Sara Bonfim edita o blog A Mulher da Televisão
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Sinistro em cascais ...
 por Renata Celes


Explicação de um operário português sinistrado, à Companhia Seguradora, que estranhou a forma como o acidente ocorreu. Este é um caso verídico cuja transcrição abaixo foi obtida através de cópia de arquivo na companhia seguradora. O caso foi julgado no Tribunal de Justiça da Comarca de Cascais.

O Português explica detalhadamente como aconteceu ao juri do Tribunal Judicial da Comarca de Cascais

Exmos. Senhores,

Em resposta ao pedido de informação adicional informo: No quesito no 3, da participação de sinistro,
mencionei "Tentando fazer o trabalho sozinho" como causa do meu acidente. Disseram na vossa
carta que deveria dar uma explicação mais pormenorizada pelo que espero que os detalhes abaixo
sejam suficientes.
Sou assentador de tijolos. No dia do acidente, estava a trabalhar sozinho no telhado dum edifício novo
de 6 (seis) andares. Quando acabei o meu trabalho verifiquei que tinham sobrado 250 quilos de
tijolos. Em vez de os levar à mão para baixo decidi colocá-los dentro dum barril com a ajuda de uma
roldana, a qual felizmente estava fixada num dos lados do edifício no 6º andar.
Desci e atei o barril com uma corda, fui para o telhado, puxei o barril para cima e coloquei os tijolos
dentro. Voltei para baixo desatei a corda e segurei-a com força de modo a que os 250 quilos de tijolos
descessem devagar (de notar que no quesito no 11 indiquei que o meu peso era 80 quilos).
Devido à minha surpresa por ter saltado repentinamente do chão, perdi a minha presença de espírito
e esqueci-me de largar a corda. É desnecessário dizer que fui içado do chão a grande velocidade. Na
proximidade do 3º andar, embati no barril que vinha a descer. Isto explica a fractura do crânio e da
clavícula partida.
Continuei a subir a uma velocidade ligeiramente menor não tendo parado até os nós dos dedos das
mãos estarem entalados na roldana. Felizmente que já tinha recuperado a minha presença de
espírito e consegui apesar das dores agarrar a corda. Mais ou menos ao mesmo tempo o barril com
os tijolos caiu no chão e o fundo partiu-se, sem os tijolos o barril pesava aproximadamente 25 quilos
(refiro-me novamente ao meu peso indicado no quesito no 11). Como podem imaginar comecei a
descer rapidamente. Próximo ao 3º andar encontro o barril que vinha a subir. Isto justifica a natureza
dos tornozelos partidos e das lacerações das pernas bem como da parte inferior do corpo. O encontro
com o barril diminuiu a minha descida o suficiente, que minimizou os meus sofrimentos quando caí
em cima dos tijolos e felizmente só fracturei 3 vértebras.
Lamento no entanto informar que enquanto me encontrava caído em cima dos tijolos com dores
incapacitado de me levantar, e vendo o barril acima de mim , perdi novamente a presença de espírito e
larguei a corda. O barril pesava mais que a corda e então desceu e caiu em cima de mim partindo-me
as duas pernas.
Espero ter dado a informação solicitada do modo como ocorreu o acidente.

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