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Bela-Parrachia, Vida e Morte dos MitosIntrodução
Apócrifos Cabalísticos
Bela-Parrachia , 10 de julho de 56 D.V (correspondente a 153 d.c)
Sou um eremita da seita mais conhecida como Bela-Parrachia, chamam-me hoje de Von Darsê, somos um grupo de pessoas obstinadas a querer saber em que acreditar, mas nada acreditamos, melhor dizendo, acreditamos nas respostas que encontramos durante um tempo mas sabemos que respostas nunca são verdades. Vivemos como errantes rodando por esse mundo, a procura de respostas que escreveremos sempre a carvão, assim até mesmo o vento poderá apaga-las. Von-Darsê sempre foi fiel sua cultura, mesmo que fidelidade aqui não signifique respeito a tradição, nem mesmo concordância. Nascida na terra do sol nascente sempre a magia e os sonhos fizeram parte dos seus cultos incultos. Vou contar-lhes então algumas historias que aconteceram conosco para que possam compreender melhor a nossa seita tão religiosamente pagã.
Bela-Parrachia e a Linguagem.
Espíritos “nômades” vagaram muito tempo, pelas mais diversas
terras inabitadas e mórbidas, alegres e ensolaradas, entre essas
ja tinham passado uma vez por uma cidade chamada Swan-Tao, a muito, muito
tempo....
O povo dessa cidade não podia se lembrar bem, aquele povo ja era
agitado demais, vivam em função do futuro, não tinham
tempo para lembrar o passado, tampouco o presente. Os espíritos
voltaram a aparecer na cidade de Swan-Tao de modo tão espontâneo
que chocaram as pessoas desprecavidas, um espirito chamava demasiada atenção,
esse espirito era mais conhecido por Von Darsê, um eremita “solitário”
da seita Bela-Parrachia.
O povo em Swan-Tao falava tanto do acontecimento que nada comunicava, sua
linguagem era pura verborragia, a alma deste povo era fraca, talvez consumida
demais pelas excentricidades sadomisticas do mundo moderno, sua linguagem
era tão rica, sua língua tão bem escrita que nada
comunicava, intrigado pela linguagem harmoniosamente brilhante dos Bela-Parrachia,
um sujo e nobre camponês resolve perguntar a Von Darsê :
- O que precisamos para dizer como dizes? Comunicar como comunicas? Ser
o que sois?
- Precisardes antes de mais nada serdes sexualmente ativos, assim não
precisaras mais gaguejar a um instinto reprimido, não precisais
de linguagens tão complexas quanto a complexidade que não
alcanças por estardes tão presos e cansados como mortos.
Palavras são palavras, olhe em meus olhos e veja além...
O jovem compreenderá a mensagem, olhará não só
para os olhos de Von Darsê mas também para seus gestos, a
velocidade de sua fala, sua movimentação labial, e começou
a compreender o que nunca havia compreendido.
Posso ver não só teus movimentos, como teus sentimentos,
mas como posso ser livre? Como posso gozar do livre sentido do nonsense
? O sábio ficou parado observando o jovem conseguir sua própria
resposta....
O jovem olhou para o chão então e pode ver uma formiga que
batalhava para levar um pequeno pedaço de arroz para tua casa, o
jovem pegou teu arroz naquele momento, observou-o e disse:
- Todos somos grandes, todos devemos ser um pouco abusados e nunca humildes
demais, devemos ser naturais e espontâneos e comeu o pedaço
de arroz. Eu hoje desejo sangue, desejo com inocência, desejo acima
de tudo arroz. Disse tudo com um sorriso altamente natural no rosto enquanto
bebia vinho e comia arroz.
Era visível demais, Khon Hu, o jovem , apresentou-se aos espíritos
e disse-lhes : Descobri todo sentido da comunicação mas não
devo agradecer-lhes, apenas pelo arroz que jogastes no chão, esse
me trouxe luz.
Sobre o Criador
O povo Bela-Parrachia dirigiu-se ao centro de Swan-Tao e começaram
a montar um gigantesco ganso de bambu, o povo de Swan-Tao parou para observá-los,
entrando em choque com a cena incomum de seus dias monótonos, o
mais interessante era que o ganso de bambu de aproximadamente 2 metros
possuía uma genital de aproximadamente 40cm, alguns então
começaram a debochar do ganso e Khon-Hu deteve-os com sua neo-sabia-linguagem.
- Ganso, Deus, Genital Grande, Valor Sexo, Risadas, Pequenez, Moralismo,
Embriaguez, Estupidez....então ficou olhando para cima e para baixo,
depois manteve suas mãos numa linha retilínea, na linha do
horizonte, na aurora, tocou então no cerne da questão.
O homem que até então zombava ajoelhou-se e disse:
- Perdoe-me, o tempo me matou, a falta de sexo enrijeceu-me, a moral trancafiou-me,
preciso livrar-me de toda essa morte
Então gritou com toda força :
- 1, 2, 3, 90, 4 !!!!
Com esse gesto mesmo o homem comum tornou-se ali um Bela-Parrachia e quebrou
o encanto nebuloso que haviam feito em ti. O homem então começou
lentamente a andar de trás pra frente criando não só
uma nova maneira de andar, criará ali, um novo mundo, e afirmará
aos prantos:
- SOU TÃO DEUS QUANTO DEUS FOR O GANSO!! Seguirdes então
o caminho que não levas aonde deseja chegar..
Von Darsê ainda falará com a multidão que aos poucos
se ajoelhava para a estatua de bambu do ganso:
- A magia vos cerca, e não deveis temer, pois tudo que será
feito poderá ser desfeito, pois tudo que ostentastes, tudo que tomastes,
será roubado de ti pela magia. A magia de nosso criador que procuramos
eternamente sem nunca ter encontrado, que procuramos eternamente sem ao
menos querer encontrar. Viva Parrachia, que bela!!!
O povo então começou a observar a magia, observar que um
ganso de bambu era tão poderosamente místico quanto mística
fosse a magia de quem pudesse olha-lo, e as pessoas eram tão deuses
quanto mágicos fossem eles mesmos, mas o povo ainda não compreenderá
os arrozes que a todo momento os Bela-Parrachia jogavam no chão,
e a todo momento comiam...
O Arroz e o Mito
Enquanto os Bela-Parrachia jogavam bolinha de gude, grande parte do povo
os observava e tentava compreender aqueles espíritos ensolarados,
alguns insultavam-os, alguns os veneravam, mas ninguém era de forma
alguma indiferente.
Durante um ritual os Bela-Parrachia disseram todos juntos como num grande
refrão harmoniosamente caótico:
- Bolas de gude, acerte aquela bola, derrube-a, esmague-a, aquela bola
ja é velha demais.
Ficaram então correndo em círculos, gritando essa frase repetitivamente,
eis então que a chuva começava a jorrar, destruindo sua própria
cerimonia das bolas de gude, eles então começaram a comer
arroz e dançar, esse era o famoso ritual da auto-destruição.
Nesse ritual destruíam suas próprias crenças em prol
de novas crenças, assim poderiam sempre ir além na procura
do desconhecido.
O arroz era um dos reagentes que utilizavam para fazer suas magias, utilizar
sua alquimia, além de um grande vício que nunca poderiam
largar se quisessem realmente superar a si próprios. O arroz continha
uma magia tão grande que foi utilizada pelos Chineses para plantar
e pelos Bela-Parrachia para chegar a um estado meta universal, o arroz
produzia sensações neles que podiam ser comparadas aos transes
hipnóticos produzidos em algumas tribos durante cerimonias religiosas,
porem não se tratava simplesmente de um mero recurso psicológico.
Pelo arroz conheceram além do universo, e mostraram suas experiências
para todos, mostraram o poder da dança dos deuses, depois aprendida
por outras culturas e religiões, afirmaram que todos deveriam satisfazer
seus desejos, qualquer que fossem, desde brincadeiras até os sexuais,
independente de serem poligamicos ou monogamicos, independente de ordens
políticas ou religiosas e assim o foi até a repressão
e mutilação da naturalidade por pessoas quase sempre mal
intencionadas.
"A grande verdade: a verdade temporal, a verdade que não afirma, a eterna duvida.”
A espontaneidade e o Caos Ordenado
Chuvia muito em Shaw-Tao, estavam todos no templo Quay-Wan, era um dia
que não se podia ir as ruas, pois estava-se no dia da constelação
Chen, dia sagrado para a religiosidade conterrânea. Um menino, porém,
pedia muito aos país para irem a rua com ele, pois na rua se encontravam
os Bela-Parrachia dançando e comendo arroz na chuva.
O pai revoltou-se e bravejou com sua áspera voz :
- Isso é um absurdo, hoje é dia de Chen, algo terrível
acontecerá a aqueles incrédulos, os ceticos sempre foram
uma praga filho, escute-me bem.
Um ancião Bela-Parrachia que estava perto não pode deixar
de ouvir, e retrucou:
- Digo-vos irmão, tens tanto medo do perigo do fogo, que não
percebeste que o fogo ja te queimaste por dentro, enquanto vos o prendestes.
Liberte teu filho, não permita que vossa prole queime convosco.
Recusar-lhe-ei a vida?
O pai do garoto mordeu os dentes e começou a pensar, observou que
toda sua vida havia reprimido seus sonhos, seus desejos, do que sempre
quis fazer e não o fez pelo medo e obediência das tradições
e moralismos mas ainda tinha medo de seu filho servir de teste para o azar.
Resolveu então sair junto de seu filho, abalaram-se os portões
da ordem, tiraram as roupas e saíram correndo pela chuva, em pouco
tempo estavam dançando pelados como os Bela-Parrachia, e claro,
comendo arroz.
Tinham agora uma nova tradição, caoticamente destruíram
a ordem e então constituíram essa nova ordem, a de se despir,
dançar, comer arroz...os Bela-Parrachia juntaram-se então,
começaram a jogar bolas de gude até que resolveram não
mais dançar e sim ler, entrava-se na era da leitura na China.
Leitura de um trecho do diário de Von Darsê :
- Hoje 16 de abril de 48, o sol já se esconde dentre as montanhas,
estou muito feliz, estamos conseguindo comprir nosso objetivo, apesar de
não termos uma meta paradigmática, o povo ja se solta mais,
dança mais, ri mais, se diverte mais e se preocupa menos. O imperador
está preocupado com a diminuição do trabalho dos camponeses
e parece desejar nossas cabeças, não me é estranho
esse comportamento de um ser que prende dentro de si tanto fogo, as queimaduras,
a depressão e o desespero se fazem assim. Nós desejamos sexo,
sorrisos, diversão, cultura, leitura e caos harmônico. Estou
realmente surpreso pela vida que podemos levar quando negamos a morte na
vida.
Espaço, Tempo e a Felicidade
As pessoas se perderam no tempo e no espaço, as pessoas roubam o
tempo e o espaço uma das outras, como querer encontrar a felicidade
se você não detêm o tempo-espaço da sua vida?
Um escravo conhecido como Amadah-Len veio perguntar aos Bela-Parrachia
: Estou tão deprimido, como posso ser feliz?
Jung de Miro e Von Darsê responderam-no com a suavidade drástica
dos Bela-Parrachia : Como quereres ser feliz, enquanto procuras a felicidade
de
olhos vendados? Como podes comer se não tens a comida, onde plantar
e nem ao menos o tempo para comer? Para ser feliz precisas antes de mais
nada de tempo para ser feliz, precisaste ter o teu tempo para ti...enquanto
teu tempo é roubado, não poderás encontrar a felicidade,
precisas pois tomar o tempo de quem te rouba, tua majestade, teu senhor,
tua religião ou tua política e após retomar a terra
roubada que outrora foste tua, e hoje te negam com veemência.
Ai jaz a essência da felicidade, mas não só ai, se
tua religião te aprisiona em vida ou em morte não podes ser
feliz, precisastes na vida do gozo que outrora fostes pecaminoso, precisastes
viver no mundo, para fora, e não se trancar em si mesmo, o orgasmo
pleno de um ser se faz ai.
Von Darsê então lhe deu uma lição que o escravo
jamais esqueceria :
Seja livre mas não se esqueça, te prende um pouco também,
não viva só como um animal, só pelos instintos, do
mesmo modo que um pouco de veneno pode curar um envenenamento, um pouco
de mal pode curar o mal da totalidade, vos é necessário um
pouco de cada doença para que possas viver curado e não arriscar-se
contaminar até a morte. Mais quando chegar tua hora terás
de saber o momento certo de ficar doente e largar teus remédios,
pois a doença é também uma cura.
Não se iluda com teóricos que lhe dizem que o tempo vai acabar,
ou que começou por obra do divino, nem que o tempo é uma
reta ou um circulo, o tempo é mais que simples teorias, o tempo
não volta, o tempo não para, por isso precisastes da mudança,
porque o tempo não vai acabar, mais vos um dia irá perecer,
as ações humanas são infinitas porque infinitas são
tuas idéias. Portanto não tema, retome teu tempo, retome
teu espaço, retome tua vida, assim encontrarás, ou melhor,
poderás encontrar a felicidade.
O Ritual da Autodestruição
Um dia de sol, as gramas estavam verdes em Swan-Tao, as pessoas ja tinham
aprendido não só a aceitar os Bela-Parrachia mas também
a adora-los, a maioria da população tornara-se Bela-Parrachiana
e os que ainda se prendiam a neuroses e fobias começavam a desvirtuar
aquela seita ou anti-seita que negava-se sendo. Criaram dogmas, verdade
Parrachianas e começavam a dizer que só se chegaria a luz
através do “ideal” Parrachiano.
Enquanto acontecia essa desvirtuação pálida dos Bela-Parrachia
o jovem Khon-Hu olhava-se no espelho e conversava consigo mesmo:
- O que queremos? Era isso? Mais uma anestesia psíquica? Não,
nunca foi e nunca será essa lastima, devemos negar toda verdade
imortal e divina, devemos negar toda verdade imutável, devemos queimala
ou devemos esperar que o tempo a queime?
Von Darsê que vinha passando não pode de deixar de escutar,
escutou a conversa do jovem e chamou-lhe :
- Veja. (apontou para o sol e para as pessoas que ali trabalhavam).
- O que vê? – perguntava Darsê num tom melodioso.
O jovem Khon-Hu respondeu-lhe com sua percepção místicamente
realista:
- Vejo pessoas que trabalham de dia, porque aprenderam que assim podem
produzir mais e melhor. Nós não viemos aqui para ensinar-lhes
o trabalho, contudo se tiverem duvidas, podemos reafirmar-lhes que o dia
é melhor do que a noite.
- Sim, respondeu Darsê, contudo esqueceste de algo, esqueceste da
noite, assim como no dia pode-se trabalhar, descansar e praticar o coito,
a noite também é hora, a noite também é dia.
Não deves prender-te a respostas tão superficiais como noite/dia,
verdade/mentira, bem e mau, a austeridade se torna a miséria de
quem a prática, o maniqueismo do tirano.
Khon-Hu então
correu para a praça e começou a fazer movimentos que ninguem
podia compreender, deu um berro de fúria, um piso no chão
de raiva, fez algumas caretas, e começou a dançar mexendo
bastante a região pélvica.
O que ele
estava querendo? A maioria do povo olhava intrigada, alguns acusando-o
de exibicionismo e falta de pudor, mas foi o sábio Arachimini um
garoto de 13 anos que pode dizer aos intrigados cidadãos.
- Vocês estão cegos? Seus olhos estão tão fechados
que não conseguem perceber a voz que sai dos movimentos? Ele está
tentando mostrar-nos que a movimentação natural do corpo
tanto pode trazer a tranqüilidade, a emoção, os sentimentos
de volta, como nela não existe verdade, existe caos ordenado, existe
vida, existe livre liberação de fluxo e não tentativas
forçadas de tentar impor-lhes verdades como fazem. Ele dança
como quer, faz o que quer, o que teu corpo quer e o que aprendeu e não
nega o novo, jamais. Por isso ele não pode ser como aqueles que
desejam tornar a beleza dos Bela-Parrachia mais um túmulo como o
Cristianismo, o Judaísmo, e essas auto-sacrificações
masoquistas.
Logo após o discurso flamejante do garoto, Jung de Miro foi a praça
central da cidade conclamou o povo e disse :
- Vim dizer que nós Bela-Parrachia estamos partindo da cidade, porem
antes de irmos proclamo a todos os Bela-Parrachianos a fazer o ritual da
bola de gude sobre tudo que sabemos para que não nos tornemos jamais
padres Parrachianos, essa aberração nunca existiu e não
deve vir a ser. Deixemos que o devir entre em nossas vidas...
Então o povo Parrachiano voltou a sua essência lúdica,
jogou bolas de gude, divertiu-se, dançou, comeu arroz e no final
destrui qualquer vestígio de império e autoridade.
A Deriva e o Errantismo Parrachiano
“Vamos atravessar pontes
E de pontes para pontes
Assim urge nosso destino
Não ficaremos parados
Estagnados, esperando o acaso.
Não ficaremos parados
Com a faca na mão,
E a justiça no peito...nos matando a cada segundo.”
Os Bela-Parrachia então saíram de cidade de Swan-Tao e começaram
seu caminho rumo aonde a beleza os levasse, é importante ter um
objetivo, mas não para vida toda, todos objetivos devem cair para
dar lugar a novos objetivos, para a vida não ficar rígida
demais, assim como todas as localidades e condições de vida
devem ser trocadas periodicamente para não se prender a um padrão
de vida ou um padrão de ambiente, assim os Bela Parrachia construíam
sua anti-sistemática, não confiando em verdades imutáveis,
formava-se a deriva e a constante da revolução, o devir.
Foi com essa convicção que os Parrachia saíram em
direção aos desertos Árabes enfrentando condições
climáticas para eles aterradoras, o perigo era tão constante
que levou a muitos a superarem a si mesmos para enfrentar a morte. Agüentaram
bravamente tanto o clima do local quanto o tempo (quando se diz tempo,
está se referindo não só a condições
climáticas e sim a duração do próprio dia e
indo alem do próprio minuto.).
Após dias de truculência chegaram a um Oásis onde vivia
um tribo, essa tribo defenderia sua localidade estratégica com a
vida, eles detinham armas (lanças, escudos, arcos...) enquanto os
Bela-Parrachia não tinham nenhum tipo de armamento bélico.
Tudo insinuava que eram os últimos momentos de respiração
dos bombeiros incendiários, mas os Bela-Parrachia possuíam
uma grande arma escondida na manga, a revolução do gato amargo.
Aproximadamente 300 guerreiros armados partiram em direção
aos cerca de 150 Parrachianos, eis então que a situação
mudou, quem vive no mato aprende com o coelho. “ Nas ocasiões que
tudo inspira temor, nada deves temer. Quando estiveres cercado de todos
os perigos, não deves temer nenhum. Quando estiveres sem nenhum
recurso, deves contar com todos. Quando fores surpreendido, surpreende
o inimigo”
Sun Tzu foi um grande inspirador dos Bela-Parrachianos, e foi exatamente
a sua mentalidade que o povo Bela-Parrachiano utilizou para revirar a situação.
Os Bela-Parrachia então começaram a dançar e comer
arroz na frente dos 300 guerreiros tribais e como era de se esperar a chuva
jorrou, o místico ar tomará conta do local, os 300 guerreiros
acreditaram ser os Bela-Parrachias Deuses, enquanto eles eram apenas parte
da natureza, melhor dizendo, não apenas parte, ele eram a natureza
propriamente dita, assim como você e eu.
A partir dai os tribais juntaram-se aos Parrachia, começaram a adora-los,
mais logo os Parrachia os demonstraram que não só eles eram
Deuses, mostraram que todos os são. Aqueles dois povos à
partir dali aprenderam muito mutuamente como bons seres humanos, ou bons
Deuses. A magia da deriva, como a magia do errantismo trouxe aos Bela-Parrachia
muito conhecimento, evolução, força e afetividades
guardadas de todos os locais, alem da possibilidade de manter-se em constante
movimento, o constante movimento da vida.
A Virtude da Loucura (diário de Von Darse)
Durante as áridas caminhadas sobre desertos, florestas tropicais,
vimos de tudo que se possa imaginar, até mesmo o inimaginável.
Aquele sonho que se tem a noite ou mesmo de dia, para nós era realidade,
o sonho e o pesadelo eram-nos igualmente virtudes, pois da vida, eles faziam
parte.
Passou-se neve e chuva, sol e seca, até que podemos encontrar uma
das maiores dadivas que nos esperavam... Encontramos jovens nômades
durante o trajeto e ficamos muito amigos daqueles eruditos, mas um deles
se destacava demais, tanto por sua anti-sociabilidade, como pela sua magia,
seu intelecto e sua honestidade vibrantes.
Conheci esse Santo enquanto ele conversava sozinho, achei inicialmente
estranho tal fato, comecei a achar que tal homem possuíra poderes
sobrenaturais alem da luz, mais tarde iria comprovar minha teoria. Resolvi
perguntar então a alguns Nômades sobre tal estranha figura.
Contaram-me que ele era um caso realmente muito estranho, não se
envolvia muito bem com os outros Nômades, principalmente os mais
austeros que traziam a estase daquele povo. Estes nômades austeros
e jactanciosos que odiavam o jovem estranho eram os mesmos que traziam
a paralisação daquela sociedade e sem duvidas o diferencial
entre os Bela-Parrachia e eles.
Eu resolvi então falar com o jovem que era conhecido como Iquiz
Tao Hiad e descobriu no jovem tanto uma noite* imensa quanto uma sombra
ardente, o jovem era honesto de uma maneira una, não continha a
peste da falsidade e da mentira trazidos da rigidez das cidades falsas.
O jovem dizia com os olhos ao mesmo tempo tão distantes como tão
próximos do mundo como é raro de ser ver :
- As cidades fantasmas querem roubar minha alma, dentre este povo existem
desde as mais celebres pessoas, até os mais árduos tiranos,
me chamam de louco, dizem que perdi minha cabeça, mais quem quer
tirar minha cabeça são “eles” (claramente falava sobre mais
de uma entidade). Os normais estão loucos, e agora querem dominar
a “loucura” dos normais, assim ninguém irá atrapalha-los
a deter o poder, por isso fugi para essa tribo nômade que me acolheu
de braços abertos.
Chamavam-no de louco, mas loucura para Von Darsê** ainda não
era de certo aquilo, compreendo que em tal jovem haviam coisas um tanto
quanto assombrosas, parecia que ele tinha fugido do mundo, criado seus
próprios significantes, tanto para as palavras, quanto para a vida
em si mesma. Eu resolvi ajudar (ainda que com medo de destruir-lhe a magia)
aquele jovem, que apesar de tão honestamente inteligente, possuía
uma angústia de uma tonelada ( se é que podemos medir os
sentimentos.), mas não escreverei aqui como o ajudei, apenas quero
relatar o meu encontro com o mais inteligente dos homens, mesmo porque
foi o mais sábio e honesto deles.
* - Noite claramente no sentido de harmonia e beleza natural.
** - Aqui, falando sobre ele mesmo em terceira pessoa.
Usando o Vivido, Não se Vive, se Usa.
Os Bela-Parrachia após o encontro com os Nômades partiram
para a maior cidade de Oriente, ja Ocidentalizada a tempos, Bombain, lá
puderam observar as pedras que se locomovem e ficaram impressionados, terrivelmente
impressionados, viram pela primeira vez uma cachoeira que não flui.
As pedras andavam a seus objetivos tão superficiais como elas mesmas,
azedas, imóveis e duras, duras como....pedras. Seus únicos
objetivos (que elas próprias não sabiam) era manter o grande
pedregulho que mantinha seus status de pedra. Os pássaros que ali
viviam largaram tudo que era vida, eles não possuíam possuindo,
a partir de agora, tudo que eles detinham não detendo em prol de
transformar toda aquela vida em simples uso. Foi ai que a maldição
travou-se sobre Bombain, todos os pássaros viraram pedras e o pior,
não sabiam que eram pedras, e defenderiam a condição
de pedras, aqueles que um dia ja foram pássaros. Tudo aquilo era
demasiado triste, ver aquilo era quase que como transformar-se em estatua
e estar morto também.
Os Bela-Parrachia estressados e perplexos sabiam que aquela era a maldição
para aqueles que transformam suas vidas em epílogos, e começaram
a gritar sem se preocupar com as pedras e seus pseudo-objetos de uso, CRIEM
INTRODUÇÕES, PROLOGOS, VIVA O INICIO, O MEIO E PRINCIPALMENTE
O FIM, NÃO O FIM COMO DESFECHO, JAMAIS O FIM COMO CONCLUSÃO,
MAS O FIM COMO A PERCEPÇÃO DO ETERNO ERRO!!!!
Enquanto berravam essas palavras, alguns vomitavam, outros praticavam o
onanismo e gozavam, outros simplesmente cuspiam, outros respiravam com
vontade e jogavam para fora todo ar velho, o fato era que todos demostravam
o novo, todos mostravam o fluido da vida em oposição a estagnação
e a reificação que os rochedos trouxeram.
Todos os Bela Parrachia viviam e mesmo que estivessem usando roupas, objetos,
livros, eles viam tudo isso como vindo do mundo, melhor dizendo, tudo como
participação do mundo e não objetos fragmentados,
viam tudo como vindo e ainda presentes na terra, viam tudo como partes
de si mesmos, viam a vida, eram ainda pássaros.
Enquanto os Bela-Parrachia viam tudo na vida, as pedras, viam tudo como
objetos de uso, viam tudo até mesmo os animais como utilidades,
tiravam suas características, tiravam suas vidas, fragmentavam tudo,
transformando-os em objetos.
“ Se eu mantive-me inteiro até aqui,
O sonho, o sono, o despertar, não acabou
Aqui então viverei, aqui então morrerei
A energia fluiu, o mar de risos, de gritos,
De raiva, alegria, paixão, amor e ódio
Na noite ensolarada,
Tudo se vive, tudo é da terra,
A terra é de tudo, o cosmos, é tudo,
São de tudo, são de todos, são o tudo.
Somos nós. “
A Raiva e os Sentimentos
Evitam a raiva PRISÃOSem Sentimentos
Tem amor  VIDA Tem raiva
Amor  HARMONIA  Ódio
Tensão  GOZO  Climax, Alivio
Sexo  MAGIARitual da Auto-Destruição
Antagonismos formam sinteses ? Paradoxos naturais ou natureza
paradoxal ? Naturezas naturalistas, biopoliteistas ateus do devir?
-----x------------------X-------------------x------x
A quebra do equilibrio.
Estavamos numa floresta, realmente alegres em nossa caminhada
errante escutando o ancião Jung de Miro que contava-nos historias
na
roda que se formara entre a fogueira e o vinho.
- A muito, muito tempo, existia um povo que não sabia rir, esse
povo
era dominador, tinham lanças que cuspiam fogo*, guerreiros montados
em criaturas rapidas como dragões. Este povo era terrivel, rangiam
os dentes de tão angustiados, tinham os braços rigidos e
os olhos
sem expressão. Tornaram a terra das tribos daquela floresta puro
fogo, pura lama, mataram todos animais e faziam panos com a pele
desses animais para vestirem-se e mostrarem seu status.
- Eles sabiam matar, eles sabiam dominar, mas nem ao menos sabiam o
que eram os sentimentos, a muito ja tinha se perdido disso, sabiam
matar, sabiam destruir. Um dia um desses guerreiros insensíveis
encontrou um menino Bela-Parrachiano e perguntou : Onde estão os
guerreiros Parrachianos? Enquanto olhava tenso para todos os lados e
suas mãos suavam rígidas como pedras segurando a lança
que cospe
fogo.
- Eles estão como de custume brincando, tomando chá, vinho,
fumando,
fazendo sexo, dançando ou caçando, aqui tudo é alegria
e tristeza,
todos os sentimentos fazem parte de nossa vida, sabemos que negar um
sentimento é negar a todos, mas porque deseja saber? Deseja se
divertir conosco? Venha, venha! O garoto que antes fazia malabarismo
então deu as três maças que segurava ao guerreiro e
disse, venha
brinque comigo.
Nesse momento o mundo parou, o guerreiro olhou com os olhos
lacrimejando, parecia que toda aquela sua defesa, toda aquela
barreira que o impedia de comunicar-lhe com o mundo havia sido
quebrada ali, por um simples menino, por simples bolas de
malabarismo. O céu refletiu o pranto e a chuva jorrou, jorrou tão
bela quanto a inocência daquele menino que transformara uma lagarta
em uma borboleta. O guerreiro então lhe disse:
- Por favor menino, seja meu mestre, ensine-me a sentir novamente,
isso é a melhor coisa que poderia ter me acontecido, não
quero mais
viver a austeridade, deixe-me tornar um Bela-Parrachia.
Deve aprender então a raiva, pois a tristeza é tão
linda como a
alegria, o que sente dos que fizeram de tua vida uma prisão? O que
sente com relação a aqueles que matam e destroem todos os
sentimentos, todos os povos que destroem a harmonia com a natureza,
pois se alienam da vida, o que sente?
Uma fúria incontrolavel tomou conta do guerreiro que começou
a
chutar uma arvore ao lado e soca-la, seu choro não caia mais do
céu
e sim de seus olhos, a vida pela primeira vez transpareceu para o
guerreiro que gritou :
- O QUE ERA A ORDEM QUE ME IMPUNHAM ? NÃO ERA PODRIDÃO E
MORALISMO
LASTIMAVEL ? ME DERAM A MORTE E FALARAM QUE ERA VIDA, HOJE OS ÓDEIO!
O guerreiro então sentou-se e começou a meditar, meditava
não
interiorizando o ódio e sim exteriorizando-se e entrando em contato
com o mundo real, tornava-se ali parte da natureza, tornara-se ali
um Bela-Parrachia.
Após o ódio o guerreiro pode compreender também o
amor, pode
compreender todos os sentimentos que a vida traz, pode compreender a
própria vida. O guerreiro então agradeceu muito o menino
e partiu
com sua missão de trazer de volta a vida para seu povo natal. Reza
a
lenda que ele conseguiu, e todo seu povo hoje vive em montanhas
isolados em contato com os animais e a floresta.
* Acho que aqui fica claro a clarividência e os deja-vus dos
Bela-Parrachia, indo alem, fica claro a superação do tempo
pela
psique Parrachiana.
A Família Parrachiana e a Guerra da Doença Contra a Natureza
“A família, tão consagrada instituição, tão
famigerada relíquia,
passando tradições, contradizendo emoções,
limitando relações.” Lyn
Myhn. 37 d.l (depois de Lyn)
Morte!!! Pecadores!!!!! Gritava enfurecida uma multidão de
religiosos que corriam atrás dos Bela-Parrachia... Tudo começou
quando os Bela-Parrachia resolveram acampar um tempo, bem próximo
a
uma cidade religiosa, a grande questão que gerou o conflito entre
esses dois povos, foi justamente a questão sexual e familiar.
A família Parrachiana não continha os padrões monogamicos,
rígidos,
culturalmente tradicionais assim como os desse povo “religioso”,
mesmo porque o Deus da religião que condenara os Bela-Parrachia
era
um Deus assexuado (e a sexualidade para aquele povo se resumia a
procriação), e os deuses e deusas Bela-Parrachianos, sempre
morrendo
e dando lugar a outros (ou não) eram em grande parte altamente
sexuados e altamente diversos, entre eles existiam deuses (e Deuses)
assexuados, poligamicos, monogamicos, heterossexuais, bissexuais,
etc..(entre eles animais, Deusas, deuses que não eram seres,
energias...), poderia-se até considerar que toda a natureza era
a
deusa desse povo.
Dessa forma a família Parrachiana não existia como fragmentação
social, existia como totalidade popular e natural. Se formos
considerar uma família Parrachiana, deveríamos considerar
todos os
adultos como pais e todas mulheres como mães, as crianças
recebiam
educação de todos, principalmente dos mais velhos, assim
como muitas
tribos indígenas que foram influenciadas místicamente e
atemporalmente pelos Bela-Parrachia.
Após a ardida fuga do povo Parrachiano pelas florestas de Swe’rohw,
o povo Parrachiano ainda estava confuso sobre o que aconteceu e
conversavam sobre o fato :
Kohn Hu : “ Perigo, incompreensão do amigo, então apontou
uma arvore
caída sobre diversas plantas (a arvore tivera matado as plantas).”
O
que devemos fazer? Lutar ou fugir? A terra deveria ser de todos,
mais eles a tomaram, nos atacaram simplesmente porque alguns de nos
faziam sexo no meio da praça, que fica no nosso próprio acampamento.
Von Darsê : Kohn Hu, a praça não é nossa, é
deles e de todos, eles
querem nos impor suas leis, eles querem nos impor suas tradições,
acusaste-os de derrubar arvores sobre plantas, inferiste-nos de uma
pequenez ilusória. Eu compreendo que eles dominam o seu próprio
povo
através de sua família e de suas leis, mas escute-me, nos
não somos
libertadores, os maiores libertadores sempre foram os maiores
opressores, se querem acabar com o domínio devem fazer isso com
as
próprias asas, se aquela febre patológica voltar a nos assombrar,
nos defenderemos com nossos remédios.
“ A prisão da família,
sentida na pele,
sentida a ferida.
Os olhos brilhavam,
enquanto descobria a vida,
Mais tudo aquilo lhe foi negado,
o mundo lhe foi roubado
Pobre garoto,
que hoje esconde o que quer,
Descobriu a felicidade na família Parrachiana,
Descobriu a liberdade,
descobriu a amizade,
Descobriu que tudo é de todos,
e todos são o tudo,
Descobriu que tudo é parte,
Daquela maravilha,
que se chama mundo.”
Kohn Hu, 23 d.k
A Maldição que Salvou Vidas. (diário de Von Darse)
Escuto um esporro, mas não aguço minha neurose, entro em
contato com
o silencio esperando a cada vão o respaldo das ondas de som, que
adentrariam meu ouvido caso fosse necessário. Meu ouvido como o
de
uma águia capta a maldição, alguém, algo, teria
nos amaldiçoado, eu
ainda não pude saber o porque, ainda não pude prever e prevenir,
só
sabia que meu povo estava doente.
Porque? perguntava a Deusa Éris, porque teriam os Deuses cometido
tal ato? xinguei-os, não pude evitar, não importava, estaria
selado
nosso destino? Seria esse o grande fim que nós aguardava? Não
podia
acreditar, comecei a chorar diante da chuva que completava o clima
de instabilidade, a chuva caia como que me corroendo, era tão acida,
era o reflexo de minha dor.
- Ei, Porque choras meu jovem? – Perguntou um senhor que passava.
- Não posso evitar, meu povo está doente, grande parte esta
com
perigo real de vida, só o que fazem é ler, comer e dormir,
mal
conseguem se locomover. Nosso povo sempre foi andarilho, sempre foi
atlético e nunca nenhuma doença nos assombrou com tal intensidade.
–
respondi com voz mórbida
- Então o que estás fazendo a chorar? Procuraste a cura pro
teu
choro e de teu povo? Nenhum Deus comanda nada, olhe para natureza,
observe como ela se locomove, Gaia*, é assim que a chamamos em minha
terra. – disse-me o velho que tinha os olhos indiscritivelmente
profundos.
- Você tem toda razão, muito obrigado.
Agradeci-o e parti rapidamente com uma parte do grupo que ainda não
estava doente a procura de cura, mas o mais interessante foi
observar que quem descobriu a cura para doença foram os próprios
doentes que estavam a ler bastante, como única atividade que eles
poderiam realizar.
Depois de uma pequena busca podemos encontrar os remédios para os
doentes e cura-los, e incrivelmente saímos daquela “maldição”
vigorosamente mais fortes, a nossa informação havia crescido,
conhecíamos agora melhor as curas e as próprias doenças
e felizmente
não houve preços para isso. Jamais pagaríamos um preço
alto para nós
trazer tais informações, ou tecnologias, como as pedras as
chamam,
jamais seriamos cruéis como as pedras de sacrificar vidas por tais
tecnologias, mesmo porque estas nos trazem informação, o
que é bom,
porem não nos trazem o mais importante, que é a felicidade
e
harmonia de nosso povo.
Mais tarde so que Von Darsê** foi saber que o velho que lhe falará
era o famoso e hermético Dan Ki Chopper***, um santo ateu que
grassava pelas cidades mostrando o mundo para os que se atolam em
metafísicas e esquecem de viver.
* - Aqui fica claro de onde surgiram as teorias de Gaia que só hoje
são reconhecidas, iniciadas com o mestre Dan Ki Chopper
** - Novamente Von Darsê usa seu nome em terceira pessoa.
*** - Dan Ki Chopper alem de santo ateu foi o criador de uma técnica
oriental de concentração que é utilizada até
hoje.
O Mapa da Felicidade (diário de Kohn Hu)
Onde está ela que todos procuram? Onde está a Deusa, o mar,
a luz e
a razão da vida? Onde está a felicidade?
O céu caiu sobre as flores que murcharam, o céu se abriu
e as flores
levantaram, onde está a felicidade? Onde está a felicidade?
No
levantar da pétala? Ou no murchar da dádiva colorida da Deusa?
Resplandece-me os olhos tanto a morte quanto a vida, tanto o inicio
como o final e igualmente o decurso. Onde desses itens estará a
felicidade? Em si mesmo, na alma ou na sociedade, no barco ou na
viagem? No mar ou na terra? Na certeza ou na duvida?
Resolvi perguntar ao mestre Von Darsê onde poderia encontrar a
felicidade, e se eu fosse ajudar as pessoas a encontra-la, para onde
eu deveria apontar.
- Von Darsê, preciso de uma resposta, onde posso encontrar a
felicidade? Perguntei-o
- Estais triste? Não encontrastes vossa musa?
- Não. Estou feliz, sei que me tornei feliz quando vim pra ca, antes
eu era muito triste, então a felicidade se encontra onde vivemos
e
como vivemos?
- Talvez, o que achas?
- Não sei ao certo, porque apesar dos pesares em minha antiga terra
haviam pessoas felizes, é realmente muito estranho, existem pessoas
felizes em tantos lugares. Na minha antiga terra sempre diziam que
felicidade era encontrada na raiz do coqueiro, mais eu nunca vi
felicidade ali, na raiz do coqueiro. Porventura eu a encontrei nos
cocos e não na raiz do coqueiro. Sinto-me confuso, acho que a
felicidade não está em nenhum lugar definido e sim onde cada
pessoa
possa encontra-la de acordo com sua formação histórica
e intelectual.
- Talvez, vossa opinião é sabia, assim como a verdade não
é una, a
felicidade pode encontrar-se tanto no raiz do coqueiro, como no
próprio coco, na queda do coqueiro, e mesmo a própria tristeza
pode
encontrar-se nos mesmos lugares que a felicidade. Porem é necessário
dizer-vos que existem coisas que podem trazer doenças e limitar
ou
mesmo destruir qualquer possibilidade de felicidade. Não deveis
deixar de lado vossas necessidades e as de teu corpo, porque tua
religião ou tua política te prendem, isso se queres ser feliz.
Não
devemos colocar a felicidade num pilar e criar teorias para
alcança-la, devemos vive-la.
E assim disse Von Darsê, influenciado pelo espírito místico
de
Ninguém, espírito esse que influenciou muito os Bela-Parrachia.
Mais
não vou me adentrar nesse sacro santo nesse momento. Eu pude
compreender a felicidade, que tantos procuraram sem querer
encontrar. Muitos da minha antiga cidade diziam procura-la mais
estavam a todo tempo se punindo, como querer encontrar a felicidade
na punição, na dor e na amargura? A doença ja defecara
naquele
local, e seu povo esta doente demais para perceber “a praga”.
“A felicidade do velho coelho,
Jamais se traduziu em palavras
Era vista em gestos, doces lagrimas
Que caiam, subindo ao céu
A doença, a praga não lhe acometera
A sua cachoeira não era paralisia,
Era fluxo, vida, nunca hipocondria
A própria vida era felicidade, e tristeza
O mundo inteiro era sua vaidade
Que se entrelaçava nas arvores da verdade
Não tinha lar, não tinha medo,
Tudo era teu, nunca em segredo
Teus muitos filhos brincavam
Teus e de todo povo
O sol brilhava
Também a lua,
Na floresta o povo sentia,
Amor”
Kohn Hu
A Vida dos Gansos e o Culto ao Lúdico
A vida dos gansos Parrachianos “sempre” foi a marca do júbilo e
do
culto ao lúdico, e por isso, talvez, as árduas críticas
por povos
que “necessitavam” (ou simplesmente queriam) que o trabalho fosse
cultuado e mistificado como algo sagrado, nobre, onde invertiam as
relações de dominação teoricamente. A realidade
desses povos contudo
como ja lhes disse, é exatamente o inverso, o proprietário
que não
trabalha (ou trabalha menos, superficialmente..) é o nobre, ja o
camponês que trabalha arduamente acometido pela peste trabalhista
é
o pobre e o escravo.
Os gansos Parrachianos então renegavam o trabalho trabalhando, a
questão para eles era, o que é o trabalho? Se o trabalho
é
obrigação, se trabalho é imposição,
se o trabalho é chatice, se teu
trabalho é usado contra ti ou roubado de ti, se o trabalho é
evolução para os donos do poder, devemos amaldiçoa-lo,
abomina-lo,
destrui-lo, agora se teu trabalho é diversão, felicidade,
superação,
evolução, mobilidade, expressão e mesmo tristeza pode-se
ou mesmo
deve-se ama-lo.
A vida dos gansos Parrachianos era lotada de diversões, entre elas
um jogo onde usavam uma bola e com os pés devia-se ludibriar o
adversário*, esse jogo cabalístico foi inventado por um ganso
Parrachiano chamado Ganso Goiano ou G.G.Elder, essas diversões
tinham fim em si próprias contudo eram também rituais místicos.
O trabalho para eles não era “trabalho” pois detinha essa conotação
de diversão, alegria, brincadeira, etc.. portanto mesmo quando
procurando, produzindo coisas essenciais os gansos Parrachianos
faziam jogos, por exemplo : quando tinham que caçar disputavam quem
conseguiria abater primeiro um animal, então iam se divertindo.
Na sociedade dos gansos Parrachianos não existia propriedade, era
como um anarquismo primitivo, ressaltando novamente que nada era
trocado, vendido, negociado, usado, tudo era vivido e pertencia a
todos, não porque tudo era distribuído e sim porque tudo
era da
natureza, mesmo o modificado pelo homem era em essência natural,
assim como os próprios homens, portanto tudo era de todos mesmo
sem
haver uma conceituação disso.
No errantismo Parrachiano não havia lugar para lideres, somente
em
casos de guerra ou real perigo de sobrevivência, como pragas os mais
sábios ou mais velhos assumiam uma postura de organização
ou
coordenação da comunidade Parrachiana e assim que a guerra,
ou peste
sumissem esses “lideres” eram depostos e assim vivam os gansos
Parrachianos e assim Parrachiavam os gansos vividos.
“Livros a ler, trabalho a fazer, diversão a acometer, vida a
decorrer, Saúde a vencer, mente a voar, pássaros a cantar,
arvores a
viver, morrer, respirar, sementes a brotar, bebes a nascer e
verdades a transgredir”
* - essa prática foi fulminar no futebol moderno.
Sobre o Suicídio Místico
Trevas, escuridão, as gramas submersas na água escura naquele
pequeno alagamento, apenas uma planta tinha força para se manter
em
pé e em estado deplorável, se antes tivesse morrido a desgraçada.
O
que fazia de pé? Deveria ter morrido, faz parte do fluxo da vida,
faz parte da própria existência.
A verdade absoluta sempre foi vista como desgraça para os
Parrachianos, isso não é segredo para ninguém, simplesmente
é vista
com desdém. A planta velha que não morre, deve morrer, deve
deixar
que as novas plantas triunfem, deveria permitir sempre a renovação.
Começou a estranha história num árduo dia de chuva,
nos primórdios
Parrachianos, uma tempestade terrível atolará tanto os pés
quanto a
mente de alguns Bela-Parrachia. Em todo esse “caos” na tribo, alguns
Parrachianos resolveram “tomar conta da situação” e começaram
a
criar mitos e autoridades, começaram a resplandecerem-se como
salvadores.
Observando abertamente a situação, diversos Parrachianos
entre eles
Von Darsê, Jung de Miro, Kohn-Hu, entre outros resolveram intervir
e
chamaram todos os Parrachianos e demonstraram o fato, os próprios
suspeitos concordaram com a suspeita e admitiram estar fazendo
aquilo. Deveria a comunidade chegar a uma conclusão de como combater
o vicio do narcisismo, a exaltação do nome, o desejo de entrar
para
história Parrachiana.
Essa situação incrivelmente foi tomar um rumo bem parecido
com o
ritual de autodestruição, incrivelmente a superação
do narcisismo.
(diário de Von Darsê)
- Andávamos pela floresta de Macatú, Hujará (um dos
“narcisistas”),
Jung de Miro e eu, estávamos a procura de respostas, tanto mentais
quanto da resolução dos problemas da enchente. Espreitando
a
escuridão e o medo escuto um berro : AREIA MOVEDIÇA, CUIDADO!!
Afastei-me e olhei com cuidado, era Hujará, com sua face pálida,
encolhia-se como um verme com um terrível medo da situação,
contudo,
quando fomos ajuda-lo nos disse com árduas palavras – deixe-me,
irei
me libertar sozinho – eu via o estopim da situação, o narcisismo
máximo, o limiar entre o narcisismo e a separação
do mundo, a
angustia pura.
- Deixe-nos ajuda-lo Hujará, de que vale todo essa egolatria? Não
é
isso imundice e pequenez? O grande homem se faz na vida e não
precisa deixar marcas, não precisa de monumentos, ele é grande,
ele
foi grande, não precisa e nem quer provar isso a ninguém.
Hujará nos escutou e sorriu, ajudem-me gritou o homem, gritou o
menino, gritou o idoso, não importa a idade, Hujará foi sabiamente
inocente. Nos o ajudamos, ele saiu da areia movediça... e começamos
a refletir juntos sobre o que tinha acontecido.
- Como podemos acabar com esse narcisismo? Alias, como podemos
diminui-lo? Como podemos fazer que as pessoas queiram crescer por
elas, e não para um futuro ilusório, e não só
para “imortalizar-se”
– perguntou Jung de Miro
- Qual o mecanismo que as permite tal vontade de “imortalizar-se” –
perguntei-os e a resposta veio dos dois ao mesmo tempo.
- É o nome, responderam confusos
- Então ai está, derrubem o nome e estarão derrubando
também a
identidade imortal, a autoridade, o ídolo e o estigmatizado.
- Mais não estaremos deixando assim de sermos nos mesmos? argumentou
sabiamente Hujará
- Você é seu nome ou você é o que vive? Você
é palavra ou você é
mundo? Respondi-o
- Tem razão Darsê, mais o nome facilita a comunicação,
talvez fosse
mais sábio a troca após um tempo.
- Sabia opinião, estou de acordo.
Então voltamos a aldeia e discutimos com as pessoas da tribo e no
final todos concordaram com a idéia, conversamos bastante, tomando
muito chá, comendo maças, dançando, gritando, rindo...tudo
era
motivo de festa para nós, a vida era festa, a tristeza era festa,
o
amor é lindo, o ódio necessário, então após
a nossa esplendida
confraternização juntamo-nos e mudamos de nome, simplesmente
assim.
Neste momento então o céu abriu, o chuva parou, a volúpia
tomou
conta de todos, era lindo, as gotas de água caiam lentamente das
plantas refletindo os sorrisos das pessoas, o arco-íris surgiu e
resplandeceu as lagrimas que corriam o rosto de alguns, era O NOVO
NASCER DA VIDA, um segundo parto, uma segunda vida, e desde então
fazemos o suicídio místico de tempos em tempos.
Seja Você ( Diário de Von Darsê )
Importa-se? É tudo isso verossímil? Meu diário uma
farsa? Nossa
seita uma ameaça? Um mito, um santo, um Deus, um pranto? Sim, talvez
seja tudo uma mentira, importa-se? Exporta-se? Não importa se sua
verdade é real, ou uma ilusão, uma mentira. Nós continuamos
a
existir, na mente de quem for demente, o louco gênio que não
pode
ser compreendido por quem não se sublevar contra a normalidade,
o
homo normallis, a autoridade, o rei, o papa, a mitologia.
Iremos continuar por ai a fora, matando deuses, criando mitos,
construindo alicerces e os quebrando, continuaremos a jornada da
vida, evoluindo, desiludindo, disseminando o fogo e a chuva.
Importa-se? Exporta-se?
Ao seu lado estará um Bela-Parrachia, ao teu lado estará
a vida e a
morte, sem medo, com medo, sentindo a vida mesmo que com dor, com
coragem. Daqui a 1800 anos, estarei ao teu lado para destruir a
ordem, causar o caos harmônico, estarei ao teu lado para trazer o
novo, o devir, porque? Porque nos somos imortais. Porque a Deusa
Éris está ao nosso lado, por