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            Tradução e Seleção de textos: Fernando R.
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Contos e Encontros: O Bela-Parrachia e o Bêbado Lúcido
- Dançando com os gansos – Ensaios sobre o saber viver.

“E quando tudo sumiu de sua vista, ele viu finalmente”. Kohn-Hu 88 d.KH

Prefacio de Frei Nando.

Este é apenas um pequeno conto, que remonta das tradições modernas do Bela-Parrachianismo. Em 1971 foi publicado a guisa de re-introduzir o Parrachianismo na cultura contemporânea. Ele saiu num Zine alternativo francês chamado: “Les mots”, e o texto saiu na publicação como: “Il faut savoir-vivre, le Parrachian en dance avec les jars” (É preciso saber viver, o parrachiano dançando com os gansos) tendo pouca repercussão na época, em especial pela publicação ter ficado pouco conhecida. O protagonista do texto chamava-se na época de Dr.Spotin, apesar do texto ter sido publicado por um insurgente da época, que foi amigo de franceses que ficaram famosos, como os Situacionistas. O nome desse jovem era Ruy Garcia (1942-1986) e foi jornalista.
Sabemos que, contudo, esse nome não significa muita coisa na tradição Parrachiana, pois os nomes nesta tradição são trocados eventualmente, em especial através do ritual das bolas de gude¹. O motivo especial desta troca é não favorecer o que chamamos na moderna psicologia de “Ego”, pois é através do nome que identificamos a algo como nossa propriedade, isto é “meu”.
Não desejo estender-me muito sobre esse prefacio, gostaria apenas de ressaltar que este documento é extremamente interessante devido a falta de traduções de textos no Brasil sobre o Parrachianismo. Inclusive, creio que este é o único documento que temos em português que o autor aborda a tradição dos gansos, tão conhecida e ao mesmo tempo tão pouco conhecida em nossa contemporaneidade. O texto mostra também que o Parrachianismo não se resume a um nomadismo territorial, e qual sua origem, permanece mutante, e adepto do arroz.

Faço apenas o apelo final para que os Parrachianos possam além de estar suprindo-nos de novos textos, possam também estar fazendo traduções e trazendo a tona textos arcaicos dessa tradição tão bonita que foi perdida as margens da história.

Frei Nando, 2006. Um ávido Parrachiano.
 

O encontro: O bêbado e o Parrachiano.

Eram dez da noite, e eu acompanhava de perto a procissão que passava pela rua, eram tochas e pedras de estudantes rebeldes. Mas, ainda, algo me interessou como um relâmpago: Era um ser, com um olhar de cabra e um cheiro de tinta óleo misturado com canela. Ele olhou para mim, como um qualquer, e jogou uma caneta no chão. Fiquei durante uns cinco minutos parado, olhando para a caneta, tentando entender aquele gesto, foi quando ele levantou-se da cadeira e veio andando com sua bengala até perto de mim e soprou na minha cara.
Eu imediatamente sentei, e meditei: “Estou demasiado bêbado ou este ser é louco?”. Neste momento a luz do bar piscou, e sentamos para tomar uma cerveja. Eu comecei imediatamente a perguntar qual era seu nome, e por que diabos ele tinha cheiro de tinta óleo e canela, ao que ele me disse:
- Estou com fome, vou abrir um saco de amendoins.
Então ele abriu o saco de amendoins e começou a botá-los na mesa formando, no final, o esboço de um desenho que se parecia um elefante, foi quando ele me perguntou:
- O que você acha?
Respondi após tomar um gole de minha cerveja:
- É bonito. Você provavelmente é um artista.
Ele me olhou com assombro e disse:
- Se é bonito, por que você está parado?
Após dizer isso, comeu o elefante e riu, falou que eu era estranho e se apresentou:
- Me chamo Spotin e o senhor?
- Ruy Garcia, é um prazer conhecê-lo.
- Spotin, o que faz nesse bar? Perguntei.
- Bebo. Respondeu.
Nesse momento percebi que não se tratava de uma pessoa comum e que eu estava perante um grande sábio. Resolvi então fazer-lhe perguntas que pudessem nos levar a algum lugar avançado.
- Mr. Spotin, posso lhe fazer algumas perguntas?
- Você pode beber cerveja.
- O que você acha desta revolta?
- Exatamente. Respondeu.
Então ele começou a falar, precedendo minhas perguntas:
- Bem, já que você parece um gravador com pernas, eu lhe darei bons ouvidos. Eu sou de uma religião conhecida como Bela-Parrachia. Certamente, você nunca ouviu falar dela, pois já percebi que você não tem bons ouvidos.
- E no que ela consiste? Perguntei, antes que ele pudesse pagar a conta e fugir.
- Ela se resume a tudo mais. Me diga, meu jovem: Você já viu seu bisneto?
- Mas, senhor, meu único filho só tem 2 anos!
- Eu sabia que você era cego! Eu acabo de beber o seu neto!
Fiquei apavorado! Eu sabia que eu já tinha bebido demais, e talvez por isso desse tanto valor a aquelas palavras enigmáticas que beiravam a loucura. Eu sabia, no fundo de minha alma, que deveria continua a beber. Aquele dia, apenas aquele dia.
- E quem é meu neto? Perguntei, enquanto começava a vê-lo duplicado.
- Seu neto é um ganso.
- E como então você o bebeu?
- Ora! Se eu não bebesse gansos, eu já estaria morto!
Então ele explicou-me que a realidade ultima provinha dos gansos, e que tudo mais era ganso, exceto o nada, o não-ser, o não-aí, isso era o Pato. Explicou-me que a medida que o ganso ganseia o mundo se faz, e a medida que o pato – que não tem um pescoção – se move, o mundo caminha a seu fim, ao apocalipse.
O mais estranho foi que a medida que eu ia bebendo, eu começava a escutar um barulho estranho, um Q, após um U... Tive medo, terror, angustia! Finalmente pude compreender o que era: “Quên, quên”, ouvi aquele barulho assustador em minha mente, como um canhão rosnando em uma guerra... Desmaiei imediatamente.
Quando acordei, percebi que eu não estava mais bêbado, mas algo havia mudado em mim. Vi amendoins jogados no chão, e compreendi a realidade. Peguei-se e os organizei. Comecei a jogar os amendoins como bolas de gude, então começou a chover, e a chuva jorrava de maneira linda! Como eu nunca havia visto antes.

Depois do jogo foi andar na chuva, eu tornei-me um ganso, percebi plenamente a medida que eu batia minhas asas e andava nu por aquelas calçadas. As pessoas passavam e não percebiam a minha nudez, mas afinal, aquilo não tinha mais sentido. Eu era ganso, eles eram ganso, o chão era ganso. Comecei a beijá-los todos, os gansos-gentes, os gansos-chãos e até mesmo os gansos cervejas, em poucos segundos eu fui deslizando pela cidade como uma lesma e uma multidão de animais, pessoas, coisas, me seguia, de maneiras muito diferentes, e partia em direção a algum lugar. Acordei, por volta das três da manhã perto de um lago, achei que eu estivera muito bêbado. Comprei um jornal e fui descobrir que ontem a noite, por volta das 22:00 uma multidão de pessoas parecendo gansos selvagens havia invadido um mercado e “roubado” diversos itens argumentando que os itens roubados eram eles mesmos e numa outra praça publica diversas pessoas, agindo como gansos, haviam tirado suas roupas e feito uma festa, com direito a orgias e muito arroz, segundo o jornalista.

Ruy Garcia.

.Texto dedicado ao excelentíssimo Parrachino, senhor: Dr. Spotin que me proporcionou a maior vivencia da minha existência.
 

Asa Pada

Que me importam os vultos? Os vultos dizem muito mais do que uma clareira numa noite de verão... versão acabada da neblina, tonteia as vistas dos visores. Só um idiota pode ser engolido por seus olhos. Aquele que de fato vê se esforça por nublar o mundo, acaba por chacoalhar as pedras. Os sonhos de verdade estão nas mãos.
Depois do estilete verbal de Von Darsê, as pessoas fecharam os olhos e abriram as bocas, línguas se entrelaçaram e massas viraram moças, maças fizeram-se em rostos e vermelhas frutas. Quantos cantos não saíram daquele lago aberto ao fechado. Mãos manearam os arquetes e fizeram salgadas comidas: está é a santidade da massa, fazer comida com. Aqueceram-se junto ao fogo, pois é o fogo que queimou a tristeza e a melancolia. E.T.ernidade.
Fraternos irmãos, se aconchegou de suas palavras Gagaya Mana. Que hoje seja um dia e não mais outro, que hoje seja uma noite e não mais outra. Vocês me escutam com as mãos e eu lhe falo com a pele: não queridos concubinatos, o concúbito não é de se fazer de paisagens! Um pintor que se rende a iluminação não passa de um holofote! Imbecil, não consegue criar! Imbecil, não consegue concertar! Imbecil, não consegue construir!
Os meus pés dançam e minha mente morreu para dar lugar a minha alma. A alma não sabe da linguagem, o automatismo da linguagem se contrabalanceia pela fluidez da língua. Não, amados, chega de fotógrafos! Roubam nossa almas as fotografias, roubam todo poder do deus do momento, Jihoku-Uhuban. Uhuban nos deu(s) a luz e a volúpia de tal forma que a forma se perdeu, meu corpo agora é corpo. O circulo, a reta, o hexágono são todos possibilidades. Ninguém nasceu para se perder em fotografias, ninguém nasceu para ser gravador de vozes, ninguém nasceu para repetir, ninguém nasceu para olhar no espelho. Idiotas, ainda não aprenderam o valor que o fogo tem! Idiotas, ainda não tomaram uma ducha de luar! Idiotas, não viram que a aurora era feita com corpos e salivas? Idiotas, não sabem ainda construir!

Meu ódio é de um amor tremendo, e assim me aniquilo, não de palavras, nem de imagens, não de sentimentos, nem de pensamentos. As respostas foram feitas para quem não sabe formular perguntas. Nada é tão visível quanto um neblina. A turvidão é mais reta do que o claridão. Aloha irmãos, toquem pois vossos corpos e estejam a espreita do matagal, pois é do mato que surge o que tem valia. O sapo pula e águia voa, mas ainda nossos espelhos não aprenderam a falar.
 
 
 

Por que o Bela-Parrachianismo não desenvolveu no Brasil ou de como o Sol secou a terra

Por FernandoR.¹
 

Depois de séculos de bela-parrachianismo é interessante fazermos uma pequena, quiçá ridícula, re-visão crítica. Analisarmos de que forma os Bela-Parrachia sucumbiram na tarefa de chuvar os áridos desertos pomposos de verdades irrefutáveis na região brasileira.

Para quem não sabe o bela-parrachianismo começou na China, não se sabe a data certa dessa gênese, pois os bela-parrachianos tem um sistema de datação muito complexo, que parte da data de nascimento dos sujeitos particulares, p.ex. eu que me auto-denomino “Frei Nando” possuo 42 anos, logo, a data plausível seria: 42 p.F (pós Frei, polícia federal ou prato feito). Existia também, nas sociedades nômades propriamente parrachianas, um sistema de datas coletivo que era dado por uma representação fantasmática, como um Luther Blissett ou Timóteo Pinto modernos. Mas havia uma diferença. Embora esses seres não sejam, em última instância, identidades particulares como nossos nomes próprios, eram nomes que pertenciam a uma única pessoa e que, de tempos em tempos – normalmente uma estação de ano – mudavam de lar.

Esses nomes eram compostos de certa animosidade, como se ao incorporar aquele nome o sujeito tomasse para si um pouco da história do nome, um pouco da herança ancestral que vivia naquele nomina.

Mas vamos às contemporaneidades. Esses seres tão fabulosos, os bela-parrachia, como Jung de Miro, Von Darsê, Kohn Hu, Kai Mai Ching e Fernando Rivelino, Hujará, e, last but not least, Lyn Myn, dominaram o imaginário “underground” chinês durante séculos, entretanto, no Brasil sua aparição é atualíssima. Foi um árabe que se chamava Kohn Hu que trouxe os alfarrábios parrachianos que chegaram a minha mão, ainda em 1994. Este douto árabe já tinha traduzido alguns textos, que na época, muito me interessaram. Em 1999 comecei meu aprendizado de árabe com o professor Arthur e, em algum tempo, pude decifrar o estranho “Bela-Parrachia: Vida e Morte dos Mitos”. Evidente que já haviam outras tentativas de fazer-adentrar o parrachianismo no Ocidente, como na França em 1971. (cf. Contos e Encontros).

O livro trata de assuntos muito diversos, mas procura trazer um pouco de flexibilidade as verdades escritas a diamante. Ora, com tamanha estranheza o livro foi interessar especialmente os discordianos, os freaks, além de alguns anarquistas ontológicos e detratores do mainstream. O fato é que este livro ameaçava as rígidas convicções de estruturas inapeláveis: de diversas formas de “ismo”.

De certa forma é importante considerarmos que o bela-parrachianismo foi derrotado na guerra contra a paranóia. As verdades venceram, o literalismo, a seriedade e o trabalho. Fomos derrotados em nosso próprio terreno tropical. A chuva cessou, o deserto resplandeceu: a comédia morreu.
 

¹ - FernandoR. é pesquisador da CNPQ para estudos parrachianos, além de membro do comite inter-setorial para divulgação e promoção de realidades alternativas.


 
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MultiCabala dos Muito Confusos
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